PAI: APERTO NO PEITO E UMA CONVICÇÃO.

Era noite de lua cheia e a chovia, mas não percebia relâmpagos e nem trovões. Sentado ali, na edícula da casa, olhava para superfície da piscina, a luz do luar na água produzia efeitos de milhares de fractais combinando com o som síncrono da chuva, foi num passe de mágica que minha mente se esvaziou, — como se entrasse num transe: perdi a noção do tempo. Meu corpo ficou inerte: não sentia a brisa úmida da chuva, somente um estado de presença, apenas a minha consciência. Nestes instantes, assisti minha vida como num filme, quando despertei os meus sentidos, o relógio marcava (00h:51m) e foram esses, os primeiros instantes de 25 de março de 2021, prenunciando que algo extraordinário aconteceria naquele dia. 

Lindo e mágico, porém, sei que todo efeito tem sua causa e por muitas vezes pode ser explicado. Para isso, tenho que considerar os eventos que antecederam esse dia: (na manha do dia anterior, num exame de ultrassom, rotina de pré-natal, o médico informou que o bebê não estava bem.) — Nem sei direito o termo médico, mas entendi o significado: o bebê não estava recebendo oxigênio suficiente, e isso, estava afetando o seu desenvolvimento, além, representar riscos para sua vida.

Ignorar os fatos médicos seria impensável e irresponsabilidade, porque prenunciavam consequências severas para a vida do B7, com apenas 31.4 semanas. Bebê número sete —, apelido carinhoso durante a gestação. Analisamos as opções, Deise e Eu, e só havia única alternativa: (cesariana urgente e manter o bebê numa UTINEONTAL). Isso, pode até ser corriqueiro em outros tempos e em outras cidades, mas estamos numa pandemia e vivemos no interior de Rondônia —, onde tal serviço médico está disponível em apenas duas cidades: Ouro Preto do Oeste que a uns 370 km e a na capital Porto Velho, distante 700 km.

Zelo, cuidado, atenção, não importa a motivação de um pai nesses momentos, porque simplesmente a situação exige solução rápida, sem tempos para ‘mimimi’. Talvez, seja oportuno descobrir o ‘coach’ que existe em cada um, para motivar, tranquilizar: transmitir esperança e segurança. Quanto a mãe? Dela depende a maior parte, muito mais do que palavras motivadoras, pois exige determinação e coragem. A mãe leva consigo a maior parte dessa empreitada humana: de gerar uma nova vida, porque, além disso, tem que manter a sua própria, e a psique saudável. Não havia mais tempo a perder, agora é só agir. 

Escolher o quê? — Não havia opções! Só as providências necessárias e urgentes:  os procedimentos de um parto cesáreo com imediato suporte de (uti-neonatal). Vencer a distância num menor lapso de tempo até hospital (São Lucas), representava percorrer uns 370 km de ambulância por rodovia (BR 364 norte), em pleno mês de março —, um desafio de logística:  onde trafegam centenas de veículos de cargas.

Uniformidade no modo de decidir e agir, esse foi o comportamento naqueles momentos de apreensão, — houve sintonia entre nós, pensamos e agimos. Vamos agora: ela com a protuberante barriga entra na ambulância as 15 (h), — dali em diante, é só esperar, aguardar. — fiquei em Vilhena para ir de carro próprio mais tarde. Contudo, monitorei a viagem, desde onde houvesse sinal de ‘internet’ (no trajeto, cruzam por cinco cidades), e fui sendo atualizado pela (B3): a Sarah (a enfermeira) — acompanhou a viagem, porque só tínhamos uma vaga para acompanhante e escolhemos a enfermeira! De que adiantaria um advogado na ambulância?

Jamais imaginávamos que o nascimento do (B7) fosse antecipado, ou mesmo, que precisasse de UTI, porque o seu desenvolvimento foi normal e não houve nenhuma negligência das recomendações médicas. Porém, fato é, que com trinta e uma semana e quatro dias de gestação, ele teria que nascer, com urgência. — Estava pouco ansioso, não é uma situação comum, mas nestes momentos, confesso que sou bem pragmático.

Única coisa sensata a fazer é acatar as recomendações médicas, afinal, é a vida do bebê que está em risco. Fazê-lo nascer antes do tempo e mantê-lo sob cuidados intensivos, foi o recomendado. Nada mais acrescentar, só providenciar os preparativos: roupas, papelada, logística e hospital.

Nem sempre podemos estar no controle da situação, aliás, isso é uma utopia. Aprendi que desde a antiguidade, os sábios nos legaram ensinamentos, dando conta de que nunca estamos de fato controlando todos os eventos e situações nas nossas vidas. Talvez isso, seja um bom argumento para quem vive pela fé, mas quando se nasce e vive no ocidente, onde a cultura é orientada por crenças muito contraditórias e condicionadas, tendo as ideias como: castigo; inferno; maldição, etc. deixa tudo mais muito obscuro e confuso.   

Incoerências a parte, acredito na lei de causa e efeito, também, no que foi dito sobre o ser humano: “somos seres conscientes e isso nos faz parte do cosmos: somos um microcosmos”, portanto, estamos todos sujeitos as leis eternas, imutáveis que vão muito além do tempo e do espaço, como o conhecemos. Há mistérios nesta relação, ou seja, entre a percepção humana não treinada e o complexo universo. Fato é, podemos observar (leis universais) e suas sutilizas, apenas como mensagens do universo e aprender com elas.

Obedecer às leis da natureza é o sensato, e o ideal a fazer. Ter fé, é acreditar como num passo no escuro. Por isso, penso sempre por um viés positivo, sobretudo, quando estou submetido a experiências envolvendo elementos externos, aqueles, que não dependem das minhas faculdades. Mas, escolho observar, ponderar e se preciso for esperar muito, se for o caso, sobremaneira, para evitar cair num espirar de angústia e medo.

Resumindo, as circunstâncias e os pensamentos que me apresentaram naquele dia 25/03/2021, porém, são os fatos que importam: o meu pequeno Júnior nasceu as 16:09h: (prematuro de 31.4 semanas, com 45 cm, peso 1.790 gr) e continua devidamente assistido na (UTI-Neonatal). Vencidas as horas de expectativas e de tensão, penso que tudo mais está quase superado. Foi maravilhoso, vê-lo, mesmo que por instantes quando toquei no seu pequenino pulso direito e senti o calor do seu corpinho e quase sussurrando abençoe: seja bem-vindo meu filho, abençoado sejas, que (O Criador) lhes permitas: saúde, força, coragem e o discernimento para realizar os propósitos da sua existência neste plano.

1 comentário

  1. David · abril 7

    Fantástica narrativa nobre Dr Eliseu, parabéns e graças a DEUS pelo desfecho, vivi quase o que narraste com minha última boneca hoje com 4 anos, só que no meu caso, houve um equívoco por conta da operadora do aparelho de ultra-sonografia, mas que susto, graças a atitude de efetivar novo exame em outro local foi verificado o equívoco técnico e enfim minha linda veio ao mundo saudável para alegrar diuturnamente com sua presença, em desejo repetitivo, parabéns pelo filhinho.

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